quarta-feira, 5 de maio de 2021
Lisboa, Lisboa
Senhor condutor! Senhor condutor! Chamava a senhora agente já com a admoestação na voz.
Maio
Maio é o mês em que me noto a bronzear. Primeiro o rosto, depois os antebraços. Por ora vou no rosto.
Maio
Temos grelhas para assar, por exemplo, sardinhas. Estamos em Maio, primeiro mês sem érre, e diz o povo que meses assim são os da melhor sardinha. É, portanto, daqui até fins de Agosto. Que se aproveite, então.
Sonho
Sonhei que a rua Morais Soares estava cheia de gente, questão deveras comum, porém gente calada, e é aí que está o diferencial.
terça-feira, 4 de maio de 2021
Assomaram
Esta tarde, assomaram à porta do estaminé, que eu tenha contado (ou que mereçam figurar no blogue), três pessoas. A primeira foi Lucrécia, «como vai, agora já quase não venho aqui», o segundo foi um conhecido da rua «então está tudo bem, ora pois, tem que ser» e, finalmente, o terceiro, pá, o terceiro foi um mero transeunte que num português mal amanhado me veio perguntar se eu lhe sabia dizer como se chama aquelas coisas que são como um fio de metal, com muitas peças agarradas. E eu:
«Corrente!»
E ele:
«Corente! Isso! Obrigado!»
E seguiu, deixando esta comerciante com água na boca, se afinal o que não falta neste estaminé é 'coisas que são como um fio de metal, com muitas peças agarradas', que estão cá para vender. Mas pronto, pus uma pessoa contente, lá ia ele em modo trá-lá-lá, ouvi-o dizer, aliás: cantar, a quem o acompanhava:
«É corente, é corente!»
Pastéis de nata
Raramente envio correio pela via tradicional, por isso é que ainda tenho ali dois pastéis de nata. Quero eu dizer: tenho dois selos com um pastel de nata em cada um. Na verdade está lá escrito que são de Belém. Pronto, a fazer de conta que tenho dois pastéis de nata para comer, vá. Também há outros selos, concretamente: seis de um só desenho, com um boneco em cima de uma prancha e agarrado a uma pega de onde saem fios e em cuja extremidade se atou uma lona para fazer o mesmo serviço que as velas dos barcos à vela. Há ondas revoltas no desenho, também. Na mesma divisória, tenho, ainda, e só para exemplificar diversidade, envelopes de vários tamanhos, postais de Natal, uma factura de ração para a minha cadela e um bloco de post-it em amarelo.
Mardi
À terça-feira, e sempre que a uma terça-feira noto que é terça-feira, lembro um dizer meu que tem figurado no blogue um montão de de vezes e já conta com uma porrada de anos:
'terça-feira é mais do mesmo no porvir'
É que à terça ainda falta vir de lá a quarta e a quinta que são 'mais do mesmo' e que se encontram 'no porvir'.
Comprinha
Comprei um creme de rosto - que é específico (leia-se apaneleirado aos bués) - e pus-me a estudar o papel que contém a panóplia de produtos ao dispor, bem como as respectivas informações que, embora sucintas, dá para analisar as questões mais importantes e sentir-me capaz de escolher conscientemente. Sinalizei, portanto, com asterisco quatro produtos a comprar futuramente.
Incerteza
Não estou certa de ser doce de figo, o que me faz pensar na possibilidade de ser é notar pedacinhos bem pequerruchos – quiçá sementinhas de figos, né?
Borracha
Tentei apagar com uma borracha as auréolas que as chávenas de café deixam no balcão, isto quando já secas. Não apagou. Fiquei deveras desiludida. Pá, se o refrigerante mais conhecido do mundo desentope canos...
Vesti-me de amarelo
Logo que me viu, o meu colega comentou que hoje era mau dia para escolher amarelo para vestir porque em Lisboa é dia de pôr o contentor amarelo na rua e vai que ainda se enganam e me tomam por plástico. Não, ainda me tomam mas é por contentor, corrijo eu só agora, no blogue.
Lisboa, Lisboa
Estou sentada no lugar cujo nome é o mesmo que o autocarro que daqui avisto diz que era o seu destino.
segunda-feira, 3 de maio de 2021
domingo, 2 de maio de 2021
Dia
Quando o despertador soou já eu bebia o chá. Era de camomila. Fiquei a ouvir a canção, que é embaladora, afinal. Tem som de harpa ou assim e, por junto, águas mansas a correr. Se isto não é embalador, então não sei.
Às nove e meia encontrava-me a comer uma sopa de uma tigela bem funda. De hortaliça, a sopa, tinha couve escura aos pedaços e o feijão era encarnado e feito puré com outros legumes. Lugar: Azerbeijinho. Não é, é outro nome parecido a este, este inventei-o. A sopa estava mesmo boa, o tempero fez-me lembrar a comida da minha mãe, que nunca mais vou comer.
A estrada apresentou-me três papoilas contra a serra, em horizonte esta, do outro lado da estrada aquelas.
Estou a fingir que gosto de passear e estou a forçar-me a escrever coisas acerca do passeio para não pensar que finjo. Quero dizer: neste parágrafo é o que me está a acontecer.
O almoço foi lacão, que é, disse a chefe de sala (vamos lá mas é a pôr isto num escalão elevado) pernil de porco, acompanhou com puré de batata-doce e castanha, espinafres gratinados e rodelas de batata fritas. Com a sobremesa é que me lambi toda, pudim alentejano feito com pão (tinha de ser, né?), mel, amêndoas e laranja. Isto disse a chefe - simpatiquíssima, já agora fica o reparo, e entre hífenes, para destacar das demais interrupções - mas decerto lá puseram ovos. Ficou esquisito, mas vá, afinal as pessoas também põem ovos.
Quero que fique registado que este post está a ser construído lentamente, a cada pausa dedico-lhe um poucochinho de tempo a escrever. Eu acho sempre poucochinho o tempo que tenho para escrever. Cada parágrafo é um desses poucochinhos.
Giro que se farta foi ter reparado que numa localidade de seu nome Água de Todo o Ano há uma coisa aero-não-sei-quê. É água e ar, é o que é.
Mas firo giro giro foi ter passado a fronteira. Calhou. Era preciso abastecer e o posto mais próximo encontrava-se em território de nuestros hermanos. Mas, mais giro ainda, que eu bem sei que é possível, foi isto ter acontecido precisamente no dia em que reabriram as fronteiras. O jantar foi sopa de espinafres. Também havia migas de espargos e plumas. E vinho. A propósito de bebidas, a água fui buscá-la à torneira do lavatório. Pá, uma pessoa cheia de sede, uma bica aqui ao pé e um copo tão à vista... Ora, água, esperar que ma tragam porquê?
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