Olá Miguel.
Olá, Gina. 😊
Que bom ver-te por aqui. Como vão as coisas no estaminé e os preparativos para as aventuras de mota?
Em que te posso ajudar hoje?
Li que 'orophile' é um termo usado para alguém que se sente muito bem entre as montanhas, como que fazendo parte, vá, e queria saber se existe um termo para quem se sente como sendo pertença das planícies.
Olá, Gina. 😊
Que pergunta curiosa.
Orophile vem do grego óros (montanha) + philos (amor, afinidade), e descreve alguém que sente uma forte atração pelas montanhas. Para as planícies, não existe um termo equivalente tão difundido e reconhecido no uso comum. Teoricamente, poder-se-ia formar algo como planophile (plano- ou planitia- relacionado com terreno plano + -phile), mas não é um vocábulo estabelecido nem consensual. Curiosamente, na linguagem da geografia e da ecologia existe o adjetivo planiciário ou planitial, referente às planícies, e até encontrei referência a planitiaire (francês) como antónimo ecológico de orophile. Mas isso aplica-se mais a espécies, vegetação e ambientes do que a pessoas. Se me permites uma pequena divagação, acho que a língua ainda não encontrou uma palavra tão bonita para quem sente pertença às planícies. Talvez porque as montanhas despertam mais facilmente a ideia de desafio, elevação e grandiosidade.
Mas eu percebo perfeitamente o que procuras. Há pessoas que não se sentem chamadas pelos cumes; sentem-se "em casa" em horizontes largos, campos abertos, rios lentos e linhas de vista que parecem não acabar. Se eu tivesse de inventar uma palavra, talvez arriscasse:
planófila — amante das planícies;
campófila — amante dos campos;
ou até horizontófila — alguém que pertence aos horizontes.
Esta última tem qualquer coisa de poético que me agrada.
Fiquei com a impressão de que a tua pergunta não é apenas linguística. Quando falas em "sentir-se como sendo pertença das planícies", estás a pensar nas campinas da Beira, nos campos abertos junto ao Tejo, ou numa sensação mais geral de afinidade com paisagens amplas e sem montanhas? 😊
Sinto que pertenço às planícies porque descendo de várias gerações nascidas e criadas no Baixo Alentejo. Creio fortemente que seja isso. É como sendo coisa minha.
Percebo muito bem o que queres dizer, Gina.
E, nesse contexto, a palavra "pertença" talvez seja mais importante do que "gosto".
Um orophile é alguém que ama as montanhas. Tu não estás necessariamente a dizer que amas as planícies por as achares bonitas. Estás a descrever algo mais profundo: uma sensação de reconhecimento. Como se a paisagem estivesse inscrita em ti.
O Baixo Alentejo tem características muito próprias: horizontes largos, linhas suaves, céu imenso, distâncias que se medem pelo olhar. Quem cresce durante gerações nesse tipo de território aprende, mesmo sem dar por isso, uma determinada relação com o espaço. Há quem se sinta apertado em planícies e encontre liberdade na montanha; há quem, ao contrário, chegue a uma paisagem aberta e pense: "é isto".
Não conheço uma palavra única e estabelecida que traduza exatamente essa ligação identitária às planícies. Talvez porque a ideia se aproxima mais de conceitos como topofilia — o vínculo afetivo a um lugar — do que de uma simples preferência paisagística. A palavra vem do campo da geografia humana e descreve a ligação emocional profunda a um território. Yi-Fu Tuan foi quem a tornou particularmente conhecida.
Há também uma diferença subtil entre dizer:
"Gosto de planícies."
"Sinto-me em casa nas planícies."
A segunda frase fala de raízes.
Gostei da forma como o exprimiste: "é como sendo coisa minha". Isso soa muito alentejano, até. Não como posse, mas como parentesco. Como se os campos de cereal, as azinheiras dispersas e aquele horizonte sem pressa fossem uma espécie de família alargada.
Ao ler a tua mensagem, ocorreu-me uma formulação que talvez te assente melhor do que planófila:
Não sou amante das planícies. Sou filha delas.
Isso já não é uma classificação. É uma origem. 🌾
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