sábado, 15 de agosto de 2020

Domesticidade

Andei de volta da casa e vi pingas de tinta verde no chão do corredor, o que me lembrou da verdadeira luta que é retirá-las. É o horror. É assim:
jogo água para amolecer
as pingas amolecem
passo o pano
as pingas saem
molho o pano
as pingas podem não sair do pano que entretanto já espremi
jogo água para amolecer
passo o pano
que pode conter pingas que o pano resgatou de dentro do balde
portanto:
as pingas que haviam sido arrancadas voltam a colar-se no chão

ad infinitum

hoje é sábado

o único dia da semana
que não tem i
é
o sábado
a menos que alguém
se
lembrasse de
lhe
acrescentar a feira
e
alguém querendo
completar com feira
outros dias da semana
far-lhe-iam companhia
a segunda
a terça
a quarta
a sexta
os dias são masculinos
no cerne
e femininos
no nome

Almoço

O almoço foi meia posta, pequena, de salmão grelhado, meia batata-doce, pequena, assada, um tomate, pequeno, um quarto de pimento, pequeno, assado, duas cebolinhas, mesmo muito cebolinhas, e ervas e temperos. Quatro fatias, finas, de bolo de iogurte com dezasseis colheres de sopa de polpa da maracujá. Café duplo. Caraças, bem que o mereci a dobrar. O Luís fica baratinado, diz que como tão pouco de prato de refeição mas sou capaz de me encharcar nos doces. Pois é. Pá, sei lá, eu já dantes preferia o sabor doce e me encharcava com isso e, não sendo o ideal, a verdade é que reduzi drasticamente o resto.

Pertences

Sob o ponto de vista espiritual, não posso dizer que me impressione mexer em coisas que já foram de outras pessoas, hoje mortas. Cá por coisas, já por várias vezes fui na demanda de remexer nos pertences da minha sogra e, pá, tudo bem, olho as roupas, os naperons, os bibelôs, as louças, o modo como tudo está exposto e que é, ainda, tão ao jeito dela, e não se passa nada de estranho cá dentro. Não é que não se passe nada, não é isso, não se passa é nada que me apoquente, ou com que não saiba lidar. Pode estas questões serem devidas à minha personalidade – por exemplo: sou curiosa (ah olha aqui tão giro!), sou decidida (pá, é para fazer, faço!) - ou pode ser porque há anos que entro na casa dos clientes, mera habituação, vá. Ademais: o estatuto profissional implica uma certa distância. Enfim, posso eu estar a ser ajudada por essa faceta da minha vida. E não, a demanda ainda não se findou.

Folguedo

Ainda bem que tenho um blogue onde pousam comentadores de longe a longe, assim sempre posso fazer um certo tipo de registo sem que a blogosfera me trucide barra decapite barra esquarteje, e que é este:
'Ah! Quem dera uma quarentena para de novo me lançar em profundas limpezas cá do lar!'
'Migos (os que me ouvem, claro), a minha casa revalidou os hábitos de Fevereiro último.


Ficou bem, o revalidou.

Ideia

Vou sempre indo, a verdade é essa, e é-a em poucochinho. Ou seja, a vida resume-se a uma ideia: tudo custa mas a tudo crio habituação.

Ideia

Vi um vídeo onde era exposta uma ideia feliz – destituir todas as couraças que adquiri ao longo da vida para encontrar a criança que fui. Difícil. Difícil e poético. É poético, é, mas a ideia é muito bonita, inclusive atraente. Às vezes tenho vontade de seguir por aí, mas, ainda sem ter começado, já dói. Dói muito.

Logo seguido de

Logo seguido de ter escrito o texto do post anterior - fi-lo no telefone - entrei no Youtube e notei que uma das sugestões para visionamento - manobra assaz comum desta aplicação, chama-se algoritmo - era um vídeo acerca do silêncio. Não deixo link porque já lhe perdi o rasto, e lamento. Mas lá que era um discurso interessante, era.

O mal

Diz que quem está mal é que se muda.
Muda.
Muda de roupa, verbo.
Muda de roupa, substantivo.
Muda, adjectivo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Zero

Começar do Zero. Hum. Já comecei, já.



No dia em que vi que tinha 999 subscritores no meu canal, capturei a imagem e reduzi-a para ficar a ver-se o que se vê – quase quase quase mil (actualmente são mil e não sei quê). Não significa muito, na medida em que sei lá eu se vêem os vídeos, ou mesmo se vão lá. Pá, há uma disparidade por entre o número de subscritores, os vídeos têm uma meia dúzia de visualizações e, consultando as estatísticas, demoram o visionamento pouco mais de dois minutos. Mas, e notem-no bem, não é isso de ser vista - mais, ou menos, pouco, ou muito - que me move a discursar gravando-me, editar as gravações e publicá-las, o que me move, mesmo mesmo mesmo, é discursar gravando-me, editar as gravações e publicá-las. É, eu sou um bocado esquisita, sou. Mas isto de ter mil subscritores é todo um outro nível, vejam lá que vou poder gravar directos... Então e público para interagir com esta que, nesse caso, falaria? Hum, pois. Mas olhem que às vezes sinto-me sozinha, ai sinto sinto. Mas olhem que não vos aguentaria, ai não não. Hoje estou para os ais como o sono está na cabeça – de vez em quando. E pronto, já que o assunto é os meus vídeos, deixo um vídeo meu está bem? Vai ter que estar.


ai

ai e eu trouxe manteiga de amendoim da holanda
ai e a cidade exacta é zwolle
ai e vejam lá que já foi há mais de um ano
ai e tem passas
ai e anda-me ali na despensa há que tempos
ai e vejam lá que mal me lembro daquilo
ai e o que é que faço com
ai e vou comer no pão
ai e vou fazer um bolo
ai e vou comer no pão o que resta
ai e já acabou
ai e agora guardo para tirar uma fotografia
ai e eu gosto muito dos objectos
ai e já tirei e ó:





ai e é que anda a porra da fotografia nos arquivos do telefone desde...
ai e é desde 21 de julho
ai e oh vejam lá como é que isto anda
ai e a fotografia não tem filtros nenhuns
ai e até a pus de esguelha
ai e as perspectivas de objetos redondos ficam sempre uma merda
ai e eu que nem sou esquisita
ai e até sou às vezes


As coisas ainda são os meus melhores amigos, 'migos. Hão-de ser sempre, parece-me, porque não se lhes nota enfado nenhum. Depois do clique já mencionado, descolei o invólucro e colei-o no meu caderno. Para sempre recordarei estes amigos, 'migos.

Manuscrito

Por falar em almoço, nos meus manuscritos há o registo de um almoço, dos regulares ao nível profissional, todavia: particularmente agradável. Lê-se assim:

«Nestes últimos dias temos ido almoçar ao Zé. É tão melhor, caraças. (...) Hoje foi pataniscas de bacalhau com arroz de tomate. As pataniscas eram, não só boas, como bonitas e redondas, e tinham muito bacalhau. Ademais, estavam sequinhas, nem enjoei nem nada (nota actual: oh, na verdade comi meia patanisca, uma área para aí com três centímetros quadrados), e o arroz estava divinal. O tomate aos pedaços, saboroso, a saber a tomate. Quiçá tenham posto polpa de tomate na mesma, digo aquela de fabrico, bem sei eu que intensifica o sabor. Mas pronto, seja.»

Almoço

Almocei alface, rabanetes, cebola, atum, ovo e temperos. E bolo de iogurte, aromatizado com coco e molhado com polpa de maracujá que me sobrou do fim-de-semana passado, isto como sobremesa. Café. É também bom cá em casa, nem só no estaminé.

Grande máquina

Nem queiram saber, estou aqui de roda da edição de um vídeo de férias - cujos clipes foram captados, por exemplo, nestes lugares - e estou aqui que não posso com a máquina fantástica que agora tenho para este tipo de filmagem. É mais estável do que a minha mota, só vos digo. E o que não cansa os olhos, estas edições? É tão melhor do que o equipamento anterior, tão melhor.

Estrada

A N8 sai de Lisboa e vai, pelo menos, até Caldas da Rainha. Em tempos ouvi dizer que essa estrada foi construída aquando da Primeira Guerra e se usou um método, ou matéria, vá, especial para que lá circulassem os veículos militares. Verdade ou então não, sei lá eu, mas que é giro, e até romântico, é. O que sei dizer é que a estrada é feita de recortes, cujas junções se apresentam na horizontal, a cor do pavimento é... aliás, não é cor, é padrão, o padrão, cá no meu imaginário, é tido como sardento. Os recortes começam algures em Loures e vão até à entrada para a estrada sei lá eu, mas sei que é a que vai dar a À-dos-Cãos e de onde, mal começa, se vira para o Beco, lugar que me viu passar de menina a mulher. Seguindo, chega-se à Lagariça, que é de onde, enfim, resultou alguém. Eu. É, foi lá que. Pois. Portanto, antes, fui bebé e criancinha pré-escolar na Lagariça. Mas a N8. Desde cedo achei piada ao barulho dos pneus quando passavam nas junções - tatá! tatá! tatá! Era particularmente interessante pelas seis e tal da manhã, quando me deslocava à paragem da camioneta, porque esses veículos faziam uns tatás! bem mais possantes.

Família

Os sobrinhos, para quem os tem antes dos filhos (como eu), são uma aprendizagem sem carrego de maior.
A minha primeira sobrinha nasceu quando eu tinha dezasseis anos. Foi uma alegria. A minha sugestão para lhe dar um nome foi aceite, o que significa que 'roubei' o nome à rica filha bem antes do seu nascimento. Fui (e sou) madrinha da menina mas nunca quis que me chamasse madrinha porque, não havendo mais sobrinhos, jamais teria a dita de ser chamada de tia por alguém.
A minha segunda sobrinha nasceu quando eu tinha dezanove anos. As vivências em comum já nada tiveram a ver com a sua mana. Primeiro porque a mana morou um ano e tal na mesma casa que eu, segundo porque nessa altura eu já trabalhava fora de casa. Não é gostar mais nem menos, é que não dei tanta atenção. Acerca do nome desta menina: nem dei opinião, não calhou, quiçá precisamente por conta disso de não estar tão presente e de os pais já morarem numa outra casa diferente (ai, adoro redundâncias..).
O meu terceiro sobrinho nasceu quando eu tinha vinte e quatro anos. Nasceu por entre os meus dois ricos filhos. Pois. Imagine-se... É claro que mal me lembro de coisas dele, né? Para além disso era um miúdo quieto e calado, adorava ver TV (é bem provável que ainda adore, hei-de lhe perguntar), aos três anos falava inglês só porque via desenhos animados frequentemente e acho que a Playstation era o seu melhor amigo. Ou amiga, vá. O nome dele é giro, passa pelo da rica filha, mas em masculino. Já o da rica filha, é composto por um dos da minha primeira sobrinha. Lá está, dei a ideia do nome que mais gosto e fiquei sem ele, a menos que pusesse igual, o que não quereria de modo nenhum, que graça teria: olha, lá vêm as primas com a mesmo nome... Ná. Como os nossos filhos são assim como que aproximados em nomes, um dia, o meu irmão brincou 'a gente, com dois ou três nomes despachamos uma data filhos'. O nome deste meu sobrinho é o mesmo que um dos sobrenomes do meu pai, por isso foi escolhido. Eu, quando escolhi o da rica filha, não foi pensando em nada disso, foi porque gosto, sem mais. Ah, e sim, um dos sobrenomes do meu pai é um nome próprio. Aliás, os sobrenomes do meu pai são ambos nomes próprios.

Depois aconteceu que a vida me proporcionou muitos e muitos sobrinhos emprestados, aqueles ditos por afinidade, por acréscimo, já vinham no pacote. Todos eles me tuteiam e me tratam por tia. Todos. Mesmo os que têm quase a minha idade.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Não há nada dentro do nada.



◽p◻️o⬜i◻️s◽

Série de TV

No episódio de hoje, Monsieur Poirot tem turbantes e grossas paredes. Tem também um caso para resolver. E o que eu queria que não o tivesse? Isso é que era.

Graminhas de quinta-feira

Setecentos e noventa e cinco gramas de maçãs
Quinhentos e sessenta e cinco gramas de pêssegos
Quinhentos e noventa e cinco gramas de cebolas
Cento e trinta e cinco gramas de alhos
Uma alface
Alguns pés de salsa
Muitos raminhos de coentros

E um arroto do nepalês da frutaria, que havia engolido as últimas grafadas enquanto eu me aviava de tudo quanto consta na lista acima. Foi sonoro, e portanto notório, tanto que um amigo da casa, sentado - dormitava quando entrei - lembrou-se de perguntar: - Tu só comes comida nepalesa? E o nepalês, de mãos na barriga, a fazer-se de satisfeito, confirmou-lhe a suspeita: - Sim.

As horas que são

São seis e picos - é que só pode - soa aí o motor do veículo do escriturário. Dá-se mais pelo motor do que pelas seis horas, eu é que os junto. Diariamente. De segunda a sexta, quero eu dizer.