quinta-feira, 21 de julho de 2016

Lugar da musa

Eu que não chore no lugar da musa, guarde as lágrimas, por exemplo, para a senhora do Banco, que é pessoa capaz de as notar e nada dizer. Eu que deixe as tais cadeiras transparentes, que por o serem deixam passar assuntos. Há uma filha sexagenária e uma mãe octogenária que comem cada uma seu cone de gelado. A filha faz papel de mãe. É assim a vida, ao fim dumas décadas os papéis invertem-se. Afirmação corriqueira, já sei, mas.
Às vezes vislumbro o meu futuro enquanto mãe duma filha, já noto a rica filha no papel de minha mãe e noto, também, que me revejo nela e não é só fisicamente, não, há tiques e expressões que me foi buscar. Não mos tirou. Não me imitou. Nada disso. Foi-mos buscar.
«Pronto, já lavei a tromba» anuncia ela, no fim de lavar a cara com esmero, e acrescenta «como diz a minha mãe». Eu sou assim: uma besta. A rica filha (ainda) não.

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