sexta-feira, 21 de maio de 2021

Lisboa, Lisboa

Meti pela avenida errada porque me esqueci do recado que ia fazer. Mal o lembrei mudei de rota para o executar, mas eis-me de novo esquecida e numa rota que nada tinha que ver com o dito recado. Ia distraída, pronto.

O motivo

Há dias vi uma mulher tocar à campainha do consultório e esperar que lhe abrissem a porta. Notei que estava derreada, como se cheia de dores, motivo que, obviamente, a levou ali. Às vezes os males das pessoas não se vêem, há quem se dirija a um consultório sem aparentar doença alguma. Não se vêem nem se ouvem... Tipo eu, vá. Ainda bem que há médicos que lêem os olhos dos pacientes para diagnosticar e outros que não se mostram impacientes demasiadas vezes, lá isso.

Sim. Sim.

As pessoas precisam de acolhimento. De repente o que parece é que precisam de ser repelidas, mas olhem que não, olhem que não. Sim, é de mim que estou a falar. Sim, sou dessas pessoas precisadas de acolhimento.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Pondero se é o final

Dia diferente dos demais, este. Mesmo que tenha levado uma banana e as chaves da senhora, a verdade é que não juntei tudo no mesmo saco, pois que, os sapatos, os levei nos pés e assim já não houve a ideia – já corriqueira, de certezinha – de enfiamento. Pondero se deva terminar a interessantíssima temática aqui. Ponderando, não decido. Terminada a ponderação é que. Este pensamento fez-me lembrar um post que vi algures nas netes, contando de um par de ténis recentemente adquirido – de um lado está impressa a frase 'do or do not' e do outro ''there is no try'. Ora e o que é que isto não! tem a ver? Nada! É que tem mesmo mesmo mesmo tudo!

Jeudi

Não julgo que goste tanto das quintas-feiras porque cada uma dará lugar a uma sexta-feira, cuja existência é a modos que sugada pelo fim-de-semana, gosto é das quintas-feiras porque têm um i. Gosto de is, pronto. Gosto até de gostar de is.
Todas as semanas temos uma quinta
(piadinha do povo)
e todas as quintas têm um i
(piadinha de mim para mim).

um canto da árvore amarela
o canto defronte desse canto

terça-feira, 18 de maio de 2021

Sons

A mais recente impressora do estaminé imprime facturas sem som. Costumo até dizer aos clientes que cospe papel, este novíssimo aparelho, e por vezes acrescento que levam ali um rolinho, já que é essa a forma com que aparecem no exterior. Parece um nascimento, agora me lembro, pois se estava dentro e saiu, parece que nasceu. Outra novidade desta maravilha é que a impressora é que corta o papel. Mas não totalmente, deixa um milímetro ou dois no meio, a segurar o que nasceu ao que há-de nascer. E vai eu e puxo. Não sei como comparar este gesto a um cordão umbilical mas sei que gosto de fazer de conta que é comparável. Inventei isto do nascimento e agora ando para aqui cheia de ideias que todavia não sei como embelezar. Que poeta que aqui está, senhoras e senhores...
Há badaladas nesta rua ao fechar e abrir da porta do estaminé. Decidi pôr à porta o expositor de correntes, em cujo cimo coloquei um resto de corrente do mais largueirão que há, naquela de não ocupar uma bobine e tal. Pois bem, é eu a arrastar aquilo chão afora e a corrente a bater no expositor – tlim tlim tlim. É um bater desorientado, não se pense que aí já eu faço poesia, ai não faço, não. E nem música.
Uma das fitas métricas em uso no estaminé passou-se do carreto e deixou de engolir a lâmina. Então, o meu colega, homem de ideias várias, estendeu a lâmina em toda a largura deste balcão, pregando-a com pregos pequenininhos para a gente ter (mais!) um modo de medir. Ora bem, por a lâmina estar meio que abaulada (ou côncava, vá) as mangas do meu casaco raspam e emitem um som conforme movimento os braços para dedilhar e acumular no blogue os meus pontos de interesse. É discreto, o som, mas como o ouvi em todos os posts que hoje produzi faço também disto assunto, o que não é o mesmo que fazer poesia, bem sei, mas.

Lisboa, Lisboa

Desculpe lá, disse o jovem. Caminhava de olhos postos no telemóvel, eu não, mas talvez tenha feito mal as contas ao espaço e íamos esbarrando. Ele vinha de viola a tiracolo e eu acho que aos músicos se perdoa imediatamente a distração. Ainda por cima soou-me bem o 'lá', quanto mais.

Lisboa, Lisboa

Um dia destes almocei sentada no primeiro banco que encontra quem desce a rua mais bonita de Lisboa. O repasto constou de uma empada de pato com figo. O lugar onde a comprei tem uma lista enorme de recheios e escolhi esse por me parecer um par estranho e, ainda assim, promissor. Por tanta espécie de sabores haver, a empada vinha com uma etiqueta minúscula a dizer pato em maiúsculas. Cuidei de a etiqueta ser comestível mas qual quê, nada disso. Podia tê-la comido na mesma, bem sei, mas rejeitei-a e, em jeito (ai, adoro escrever mal) de bom trato, retirei-a da boca e dispu-la em cima do banco. Era bem boa, a empada, fica o registo, fiquei com quê, para aí um quilo de manteiga na barriga, peso que nenhuma das pessoas que por mim passou saberá que tenho. Lessem o blogue e saberiam, lá isso.
Tenho medo de voltar a ser gorda. Não havendo quem demonstre ter o mesmo medo que eu, há quem se espante por eu ainda ser magra. Ainda há pouco me cruzei com a dona Genoveva que, depois do cumprimento habitual, comentou 'ai caramba, vejo-a e só pela voz é que a conheço!' Tenho também medo de comer. Presumo contudo que não se nota nenhum destes medos.

Intitular

Não gosto de intitular posts, assim como não gosto de não os intitular.
Não gosto porque um título resume e estou confortável é a desenvolver.
Gosto porque em querendo repescar um post antigo, se no dito não constar título, jamais se conseguirá linkar.
Por isto tudo é que, até hoje, só compus um post sem título, o qual obviamente não poderei repescar para exemplificar. Resta dizer que nos posts, ou nos dias..., em que me sinto absurdamente incapaz de intitular, tenho dois truques, ou o número de posts que esse post atinge, ou então chamo-lhe 'post com título', porque tem efectivamente título. Pode ainda acontecer recorrer a títulos uma e outra vez, afinal o blogue contém algumas rubricas, o 'Dias dum Ginásio' é disso exemplo. Pá, era isto.

Post exacerbado

O cliente acompanhou a pergunta 'tem pregos assim pequenininhos?' com o gesto de espaçar dois dedos para aí uns quatro centímetros. Aconteceu-me portanto uma coisa longe de certa, se é que isto tem medida. É um post exacerbado, este, pronto. Eu até lhe tinha escolhido o título quando ainda só tinha a ideia.

Conclusão

Desliguei o telefone e disse ao cliente que o meu colega chegaria num instante porque vinha ao fundo da rua, o que o levou a concluir que bem lhe tinha parecido que ele não tinha ido longe porque estava aqui a mota.

É de borla

Cartão de visita oferecido por boca:
If you take a card, you can call anytime. Maybe.

Gosto desta situação do arbusto florido em duas dimensões, tu não sei.

Pá, atão, né, é aquela.

Há dez dias que não enfiava a porra do capacete nos cornos.

domingo, 16 de maio de 2021

Lisboa, Lisboa

Apagaram o 'sei lá' da rua mais bonita de Lisboa. Pintaram por cima, quero eu dizer, vê-se ainda contornos desse dizer que estava no muro junto à primeira árvore que encontra quem desce a rua mais bonita de Lisboa. Esse dizer retrata-me, daí gostar dele como gosto. Sei que o retratei quando ainda nítido, sei lá quando. Sei lá quando, lá está, 'sei lá', pipocou. Esta parte está como se fora escrita numa máquina de escrever à antiga, pipocou. Entretanto fui ver da foto e encontrei-a. Não me lembrava de a ter carregado com filtro, tampouco do que escrevi nesse post, ao qual se pode aceder, clicando aqui. De nada, ora essa.

I'm neutral, so...

...no thanks 😐

O matizado das beringelas

Há duas beringelas no móvel da cozinha. Matizadas a duas cores, a natural cor de beringela e uma espécie de branco. Ficam com um padrão listado. Ainda não abri nenhuma mas não duvido que por dentro sejam iguaizinhas às de uma só cor. Não duvido nem temo. E também não espero. A neutralidade é um absorvente da esperança. Eu vinha só falar do matizado das beringelas que estão no móvel da cozinha. Vinha, vinha.

sábado, 15 de maio de 2021

Infinitamente

Na infinita possibilidade do apaga-e-reescreve do software há facilitismo e rapidez e, se há questão que me aparece há anos, é como sairia o que escrevo se antes tivesse à disposição uma máquina de escrever.
Ia até, agora me lembro, ser giro pra caraças ter capturado o ecrã enquanto passei pelas tentativas de redigir o parágrafo acima - passou por uma boa dezena de 'figuras'. É também mais difícil abandonar os textos, precisamente pelo lado fácil que o software contém.
O que despoletou este tema foi uma entrevista que vi, e ouvi, em que o entrevistado contou que tem uma catrefada de máquinas de escrever e que as usa para escrever o que lhe aparece na hora, independentemente de lhe parecer bem ou de nada ter a dizer, é treca treca treca treca e vai disto. Esse entrevistado disse que um texto redigido através de um teclado de computador é mastigado. Pá, e é, adquire toda uma catrefada de formas (como referi acima) até o redactor considerar que o produto está finalizado. Agora vou pôr-me a escrever treca treca treca treca, a ver se me aguento.

Pois então cá estou. Falar de tempo, se calhar, não? Está um lindo dia de nuvens no céu. Pois, seria onde, né? No chão? Ah ah. O sol desponta mas em poucochinho. Neste momento (ah, sempre o momento) (o momento é a salvação do momento) estou sozinha em casa, coisa que é habitual se num sábado está o mundo. Pode dizer-se que o meu mundo gosta de sábados. Mas eu também. Gosto de estar sozinha, já pus isso no blogue uma catrefada de vezes, não fujo de estar sozinha, antes pelo contrário, promovo, consigo. Deve ser por isso que não tenho amizades profundas. Quero mudar de assunto, ai. Já chega de escrever. Já, é isso, já chega de escrever. Não chega nada. Sabem que eu acho deveras difícil escrever o que vem à cabeça sem ir buscar análises do que sou. Por isso é que escrever nem sempre é fixe e porreiro. Ai não é não. Às vezes escrever é uma merda. E é-o porque o interior clama pelo mau e ruim de mim. Até rimou. Dever ser verdade, então. Agora é que já chega. Registo que este pedaço de texto foi redigido corrigindo somente os erros do dedilhar, não o modo como está escrito e nem mesmo a pontuação. Adeus.

12000

A rica filha soube (não retive se por pesquisa deliberada, se por sugestão das netes) que os antigos - tão antigos mas tão antigos que remontam ao paleolítico (ou coisa assim) – davam cerca de doze mil passos diários. Então decidiu pôr como meta os doze mil passos no seu telemóvel, curiosa que ficou de perceber se a vida será, afinal, assim tão diferente dessa altura. Ao que parece não tem conseguido esse número. Falando agora de mim (e continuando por mim, que é um paleolítico costume que tenho), tenho a minha meta nos dez mil, e há muitos dias em que os consigo dar. Nem sempre venho pôr no blogue, ai isto ai aquilo, mas olhem que, olhem que. Olhem que venho sempre que quiser, nem sempre que me apeteça.

Bolo de banana

Da última vez que preparei bolo de banana usei as da Madeira. Como antes tinha comido uma, percebi que não eram lá muito doces e devo dizer que desconheço se é coisa da espécie ou do carácter da penca. Fiz então o bolo. Queria-o com cobertura de natas e queijo mascarpone e molho de caramelo mas vi-me impedida por conta de nos meus itens alimentares não constar natas. Reduzi, por assim dizer, o bolo a um miserável, por assim dizer, [ai, adoro escrever mal] leite condensado cozido, que é, na verdade, uma coisa caramelizada, e a vida prosseguiu a partir daí.
Já repararam que a vida prossegue de todos os presentes e ao mesmo tempo de um qualquer?
Despejei esse leite condensado numa tigela e levei-o meio minuto ao micro-ondas, o calor amolece-o, o que faz com que se misture rapidamente. Contudo, isso pode não acontecer, às vezes, por mais que misture, uns grumozinhos não se querem ver dissolvidos. Gosto de encontrar esses grumozinhos. Pá, cenas. E o leite condensado fez de cobertura com grumozinhos e tudo. Pá, atão, né, ora. 

Pastéis de nata

Da última vez que preparei pastéis de nata esqueci-me de pôr o açúcar na mistura de levar ao lume. Dei pelo esquecimento porque, ao ferver, a mistura estava meio que talhada e eu bem sabia que tinha traçado todos os itens necessários à obtenção de um bom resultado, em termos de dissolver tudo antes de ir ao lume e escolher acertadamente a intensidade do bico do fogão. Au eva...
«Ah!... Esqueci-me do açúcar!»
Pensei eu, sei lá se com voz também. Estava sozinha, o que mais faço é falar sozinha quando estou sozinha. Acomapnhada... ai perdão, acompanhada também, mas, se me ponho a prolongar este tema, saio do tema que me trouxe a este post. De maneiras que, pá, apareceu-me um creme com uma consistência tão estranha que me lembrei do açúcar que não havia posto e imediatamente me pus no encalço do frasco, alcancei-o, idem para a balança, pesei-o e joguei-o para dentro da caçarola, que entretanto havia retirado do lume, pois claro. O giro deste esquecimento é que pude perceber quão maravilhosa é a química da doçaria – logo que o açúcar derreteu a mistura aduqiriu... ai perdão, adquiriu a consistência esperável.


a receita aparece em clicando aqui (pá, sei lá eu se alguém quer saber como correu a vez primeira dos pastéis de nata)

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Gina, a comerciante de bairro

Bom dia, cumprimentou o cliente
Bom dia, retribuí
Procuro diluente celuloso, introduziu o cliente
E encontrou, exclamei
Exclamei, sim, muito embora não tenha pontuado o diálogo acima. Sou um bocado espontânea, lá isso. E nem é ideia somente minha, há pessoas que já me disseram que o sou.

27*

De maneiras que, pronto, achei que a tarefa de jogar as caixas de cartão para o fundo depósito feito de propósito para isso [ai, adoro escrever mal] era o melhor a fazer. Tratei portanto de retirar a mercadoria e acomodá-la a um canto, afinal de contas é frequente uma caixa de mercadoria ter ar a mais, ideia que se revelou, outra vez, certa, quando vi que ocupou para aí metade do espaço. Só que numa das caixas ia a factura. Pois. Bem sei que é lapso perdoável e facilmente corrigível, mas pus-me logo em memórias: *há quantos anos recebes mercadoria em cujas caixas vem colada a factura, ó Gina?
Em adenda deixo que este descuido não foi vez primeira.

Café(s)

Beber café com o estaminé em pleno funcionamento significa que a toma pode ser interrompida. Se esmiuçar o que é a presença de clientes no estaminé vou até onde pode ser e concluo que cada cliente é um acaso. E o mesmo acaso fará com que a toma de café se faça sem intervalo.

Lugar da musa

Passei no lugar da musa e vi que estava lá o senhor que em tempos idos lia o jornal, precisamente a ler o jornal. O lugar da musa agora é espaço de passagem porque a esplanada que lhe acede fica na passagem por entre as lojas da galeria comercial.

Lisboa, Lisboa

Há aquelas flores liláses (sim, o plural de lilás não carece de acento e pâ pâ pâ, só que eu marimbo pra isso e nhó nhó nhó) que moram no acesso à 2ª Circular e que de manhã se me apresentam como luminosas por reflectirem o sol. Vítreas, até. É uma soma da hora que é com o sol que está e ainda o ângulo que me é oferecido.

9779

Capicua no número de posts. Chegar aos dez mil posts antes do Verão é o que quero. Não é nada, lembrei-me, apenas isso.

Lisboa, Lisboa

Fui ao escritório do senhor doutor para entregar uma certa mercadoria. No caminho senti-me deveras atractiva.
Sim, era mesmo atractiva que eu queria dizer, dissesse eu atraente e teria que ver com beleza, já atractiva tem que ver com outra coisa qualquer, alegadamente exterior.
Levava comigo um plafonier de dimensões vistosas, daí os olhares das gentes, e em muito, uns disfarçados, outros destemidos. Após efectivar a entrega, desci a escada e eis-me de novo espreitando o jardim e fotografando-o através da nesga da janela. Tudo costumes com anos e anos. Deixo então a foto.

Lisboa, Lisboa

Na Primavera há aqueles bichinhos verdes que me caem em cima, e tanto já caíram dos plátanos de ao pé do muro de pedra como das outras árvores da avenida. Todos os anos falo destes bichinhos verdes. Parece a mim que todos os anos falo destes bichinhos verdes.

Polpinha de chicha

Lisboa, Lisboa

Nesta 'Lisboa' o cano aparece pixelizado. Ainda assim ponho-a na etiqueta das #semfiltro2021, já que o resto da foto apresento-a precisamente sem filtro.

Lisboa, Lisboa

Há semanas que queria fotografar este cano e sempre o tenho notado mais bonito quando o clima está húmido.

Ó pá tóin xiru!

quinta-feira, 13 de maio de 2021

'Mais uma' não é a mesma coisa que 'outra'.

Para que em mais uma quinta-feira haja um post onde vos descubro que pensei enfiar as chaves da senhora e a minha banana nos sapatos, tenho este post. Porém e para que todavia difira dos anteriores, acrescento que, antes de ser post, este post foi um áudio que gravei no telefone para fazer de lembrete e que, ó pá tóin xiru!, se fosse apresentado na sua primeira forma ouvir-se-ia ao fundo a voz da senhora em conversa telefónica com uma colega.

Hoje choveu em Lisboa mas a chuva que aparece na foto é artificial.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Lisboa, Lisboa

Lindo raminho foi posto no chão pelo vento ocasional. Pensei em fotografar mas desisti porque não sabia de que árvore teria caído. Os motivos são independentes de plausibilidade, noto, agora que escrevo.

Almoço

«Vou ver dele.» Anuncia o homem dos gatos, que vai de passagem. Estou à porta do estaminé e mando o bitaite que me apetece na altura, sai-me de arrasto, como tantos: «Está na hora.» «Para mim está» Continua ele «até chegar a casa é hora, ainda o vou fazer.» Sorrio, mas ele já vai de costas.

Sim, parece aquilo do ovo e da galinha.

Tanto pode as narinas terem sido formadas considerando o formato dos dedos como os dedos terem a forma que têm para poderem facilmente enfiar-se nas narinas.

«these are a few of my favorite things»

título inspirado numa canção do filme 'Música no Coração'

Mercredi

À quarta-feira não é mais do mesmo porque este dia é composto pelo comum pensamento de que se está a meio da semana. Eu, em certas quartas-feiras, noto o meio preciso da semana de trabalho, que é ali por volta das duas da tarde, ou coisa assim. Depois, obviamente, é pensamento que, noutras quartas-feiras, não me aparece.

Lisboa, Lisboa

Não deixa de ser uma selfie, lá isso.

terça-feira, 11 de maio de 2021

Ao todo é meia dúzia

Vendi quatro parafusos auto-perfurantes e duas anilhas de chapa para pôr algures no espaço que dantes era ocupado pelo velho estaminé. Vai ser uma barbearia, aquilo lá. Eu já havia dito que aquilo lá vai ser uma barbearia?

Homens da obra

É um vaivém constante, o dos homens da obra aqui ao lado, sempre que chega algum carrego de material: ele é tijolos, ele é sacas, ele é ferramentas, ou então é preciso despejar o entulho. Por vezes cruza-se um com outro, ou um outro com ainda um outro. É giro de ver, passam-me à frente dos olhos, como não ver e achar giro? Aliás: ao momento tratam precisamente dessa tarefa, por isso é que me lembrei que no outro dia, aquando de um cruzamento de dois, ia um carregado e o outro provocou ironicamente: «grandalhão!» É realmente pequeno, o grandalhão, mas reagiu de imediato: «vai à merda!» Não sei se o outro foi mas sei que o grandalhão continua pequeno.

Percurso

Não se dá cabo das más experiências, para sempre existirão e é bem que assim seja porque, em querendo, servirão para orientar o resto do percurso.

Dias de um Ginásio

Retomei as aulas presenciais no Ginásio.
Na primeira aula tive o prazer de ver a professora sorridente. «Nota-se que estou mesmo feliz?», perguntou ela, para todos, respondi que sim. Vocalmente. E na minha cabeça está que lhe sorri aos bués, o que também é fixe.
Na segunda aula vi-me em prancha com remada e, achando que estava no ponto, alegrei-me. Nesse preciso momento a professora comentou com espanto: «Gina! Que estabilidade!» Pá, desmanchei-me a rir e, por junto, desmanchei a postura. Caraças.
Na terceira aula cheguei com tempo a mais para a dita, porém, de menos para fazer qualquer coisa em outros departamentos do Ginásio. Equipei-me e sentei-me num dos bancos do balneário, esperando a hora. Continuo a ser uma desassossegada da porra, não me vejo sem fazer coisas, sinto que não posso estar a modos que vazia porque me encho rapidamente do imprestável, e, por não estar a fazer coisas, pensei então no imprestável. Ouvi alguém perguntar «está tudo bem?» mas pensei que não era comigo. A pessoa insistiu e percebi que a questão era para mim. Olhei e vi uma jovem com uma expressão muito agradável. Na minha cabeça está que sorri tristemente. Respondi que sim e agradeci. Depois estiquei a ocorrência uma beca, alindando-a com toda uma catrefada de frases nascidas do é-assim-a-vida-cada-um-com-as-suas.

Corpo em transparências

No comedouro comercial onde me encontrava um homem entrou e cumprimentou os presentes individualmente, passando inclusive pelo pessoal de trabalho, excepto uma pessoa. Surpreendeu-me em poucochinho mas notei em muito. Matriz: há pessoas transparentes, mesmo que socialmente dispostas, independentemente de.

Banco de trás

Cá por coisas da minha vida feita vidinha espantosamente espantosa acontece que acontece viajar no banco de trás do carro por estes dias. Na verdade era isto. Quero dizer:

era isto + uma foto

Tatame

Cá por coisas da minha vida feita vidinha espantosamente espantosa acontece que acontece dormir no tatame por estes dias. Sou portanto pessoa para passar a vida a treinar. O Luís até comentou que sou 'uma atleta do caraças', que 'é tatame no Ginásio, é tatame em casa'.

Lugar de destaque

Quando percebi que o lugar de estacionamento que coincide com a porta do estaminé estava ocupado por uma viatura que não a de Paquita e Ramon, cuidei de terem rumado à Galiza. Só que entretanto vi-os na voltinha pedestre do costume. Sim, pedestre, e do costume, daí a sua viatura sumamente resignada ao mesmo lugar há meses. Temos então, por ora, uma bólide nesse lugar, e enlameada, o que é maravilhoso, pois quando a chuva nela der, é ver a vida a acontecer.
E mais depressa eu me pusesse na enga de registar este singelo facto, mais depressa a bólide daqui sairia. E assim tudo voltou ao mesmo – viatura de Paquita e Ramon volta a coincidir com a entrada do estaminé. De nada, ora essa.

Graminhas

Comprei uma beterraba com rama, de seu peso: duzentos e sessenta e cinco gramas. Comprei também morangos (quatrocentos e sessenta e cinco gramas) e alperces (duzentos e oitenta e cinco gramas), aos quais me apeteceu chamar cá por dentro 'alpareces' e agora está mesmo a apetecer-me pôr a gireza no blogue. Há dias, ao invés de 'querida', o nepalês da frutaria colocou o 'amor' (tudo explicadinho: chamou-me 'amor') na nossa relação puramente comercial. E eu bem sei que é também uma coisa lisboeta, isto do 'amor', da 'querida' e, até, da 'linda'. Entretanto, mais dias passados, sou tratada por 'princesa'. Não sei é se é uma escala ascendente de atenção e afecto, mas.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Painel

No painel, as agá-us ficam na primeira fila. Longe, portanto. Não, não é como no cinema, não.

Tropeçar não é cair

Tropecei numa pedra saliente e senti um choque na testa. Aquilo foi choque do pé à cabeça.

Isto é frio

Vesti-me de acordo com uma Primavera que afinal hoje não apareceu. Esteve portanto um frio do caraças.

Ao longo de anos tenho registado no blogue cadáveres que encontro dentro das montras mas isso não significa de todo que este seja apenas mais um.

De quando tentei que a caneta vermelha escrevesse no papel.
Tentei e escreveu.

domingo, 9 de maio de 2021

brabuletah

No passeio com a cadela, avistei-a por entre flores amarelas e ramagens verdes, o que formou um bonito contraste, e entretanto avistei uma borboleta amarela e verde. Estava de asas fechadas, daí ter-me parecido que o amarelo era a cor das costas e o verde a da frente. Mas isto são conjecturas, claro. Continuando a conjecturar, as asas não coincidiam, a do lado direito estava mais baixa que a do esquerdo, e foi por isso que vi o amarelo. Era uma coisa meio que desfasada. Conjecturada, vá.

Bambu

Comprei um cesto para pôr a roupa suja que dizia a embalagem ser feito de bambu. Lá que cheira a qualquer coisa amadeirada, cheira. Vou então supor que é bambu. O anterior cesto estava todo partidinho. Sendo de plástico e com feitio de tiras, aconteceu que tiras se separaram do todo e a roupa encalhava ali. Não é encalhava, é qualquer coisa que não sei o que é, não neste momento. Hum, é... prendia-se! É isso, prendia-se a roupa nessas tiras separadas do todo. Há meses que este item constava na minha lista de faltas do supermercado. Não gosto de ir ao supermercado. Não gosto. O que gosto é de ter a minha casa com tudo o que acho necessário ter. Disso é que gosto e é por isso que lá vou. Somente.

Amarelo

O abacateiro está mesmo muito amarelo e não me lembro como estava aos mais anos e gosto de não me lembrar. Gosto porque assim tenho para mim a novidade, existência sem a qual viveria doente. Esta é uma observação que coube em duas frases e que (igualmente) preparei ontem à noite e, giro giro giro, calhou de hoje a manhã estar de chuva (imagem) e molhar tanto o abacateiro que escureceu um bocado.

Sonho

Sonhei com sangue.
SCS
Quase parece SOS, falta-lhe um poucochinho de nada.

ó pá tóin xiru!

lista que preparei ontem à noite, sendo que, agora, é hoje de manhã

estender a roupa
arrumar a louça
fazer o bolo
aspirar uma metade
escrever até esquecer que também sou a senhora da limpeza cá em casa
editar o vídeo
preparar o almoço
passear o cão
arrumar a cozinha
encher as máquinas
aspirar outra metade
lavar o chão
limpar o fogão
apanhar a roupa
estender a roupa
arrumar a louça
escrever para esquecer que também sou a senhora da limpeza cá em casa
apanhar a roupa
encontrar respostas
eliminar oposições
fingir encontrar e eliminar e esquecer que finjo

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Registo invulgar.

É bom que registe que hoje não me apetece escrever, já que é absurdamente invulgar.

São quatro da tarde.

Voltei a caminhar de cabeça baixa, cruzei-me com cinco cêntimos. Enquanto escrevo, para contariar a perspectiva, ou coisa assim, da torre da igreja chegam quatro badaladas.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

diferente, afinal*

pensei em enfiar a minha banana e as chaves da senhora nos sapatos, e enfiei, mas só as chaves, que a banana, pronto, desisti

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Sol

Por ora não maldigo o sol - banhou-me a pique e foi bom.

Lisboa, Lisboa

Senhor condutor! Senhor condutor! Chamava a senhora agente já com a admoestação na voz.

Maio

Maio é o mês em que me noto a bronzear. Primeiro o rosto, depois os antebraços. Por ora vou no rosto.

Maio

Temos grelhas para assar, por exemplo, sardinhas. Estamos em Maio, primeiro mês sem érre, e diz o povo que meses assim são os da melhor sardinha. É, portanto, daqui até fins de Agosto. Que se aproveite, então.

Sonho

Sonhei que a rua Morais Soares estava cheia de gente, questão deveras comum, porém gente calada, e é aí que está o diferencial.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Assomaram

Esta tarde, assomaram à porta do estaminé, que eu tenha contado (ou que mereçam figurar no blogue), três pessoas. A primeira foi Lucrécia, «como vai, agora já quase não venho aqui», o segundo foi um conhecido da rua «então está tudo bem, ora pois, tem que ser» e, finalmente, o terceiro, pá, o terceiro foi um mero transeunte que num português mal amanhado me veio perguntar se eu lhe sabia dizer como se chama aquelas coisas que são como um fio de metal, com muitas peças agarradas. E eu:
«Corrente!»
E ele:
«Corente! Isso! Obrigado!»
E seguiu, deixando esta comerciante com água na boca, se afinal o que não falta neste estaminé é 'coisas que são como um fio de metal, com muitas peças agarradas', que estão cá para vender. Mas pronto, pus uma pessoa contente, lá ia ele em modo trá-lá-lá, ouvi-o dizer, aliás: cantar, a quem o acompanhava:
«É corente, é corente!»

Pastéis de nata

Raramente envio correio pela via tradicional, por isso é que ainda tenho ali dois pastéis de nata. Quero eu dizer: tenho dois selos com um pastel de nata em cada um. Na verdade está lá escrito que são de Belém. Pronto, a fazer de conta que tenho dois pastéis de nata para comer, vá. Também há outros selos, concretamente: seis de um só desenho, com um boneco em cima de uma prancha e agarrado a uma pega de onde saem fios e em cuja extremidade se atou uma lona para fazer o mesmo serviço que as velas dos barcos à vela. Há ondas revoltas no desenho, também. Na mesma divisória, tenho, ainda, e só para exemplificar diversidade, envelopes de vários tamanhos, postais de Natal, uma factura de ração para a minha cadela e um bloco de post-it em amarelo.

Mardi

À terça-feira, e sempre que a uma terça-feira noto que é terça-feira, lembro um dizer meu que tem figurado no blogue um montão de de vezes e já conta com uma porrada de anos:
'terça-feira é mais do mesmo no porvir'
É que à terça ainda falta vir de lá a quarta e a quinta que são 'mais do mesmo' e que se encontram 'no porvir'.

Comprinha

Comprei um creme de rosto - que é específico (leia-se apaneleirado aos bués) - e pus-me a estudar o papel que contém a panóplia de produtos ao dispor, bem como as respectivas informações que, embora sucintas, dá para analisar as questões mais importantes e sentir-me capaz de escolher conscientemente. Sinalizei, portanto, com asterisco quatro produtos a comprar futuramente.

Incerteza

Não estou certa de ser doce de figo, o que me faz pensar na possibilidade de ser é notar pedacinhos bem pequerruchos – quiçá sementinhas de figos, né?

Borracha

Tentei apagar com uma borracha as auréolas que as chávenas de café deixam no balcão, isto quando já secas. Não apagou. Fiquei deveras desiludida. Pá, se o refrigerante mais conhecido do mundo desentope canos...

Vesti-me de amarelo

Logo que me viu, o meu colega comentou que hoje era mau dia para escolher amarelo para vestir porque em Lisboa é dia de pôr o contentor amarelo na rua e vai que ainda se enganam e me tomam por plástico. Não, ainda me tomam mas é por contentor, corrijo eu só agora, no blogue.

Lisboa, Lisboa

Estou sentada no lugar cujo nome é o mesmo que o autocarro que daqui avisto diz que era o seu destino.

Pá, atão, né, é aquela.

domingo, 2 de maio de 2021

Dia

Quando o despertador soou já eu bebia o chá. Era de camomila. Fiquei a ouvir a canção, que é embaladora, afinal. Tem som de harpa ou assim e, por junto, águas mansas a correr. Se isto não é embalador, então não sei.
Às nove e meia encontrava-me a comer uma sopa de uma tigela bem funda. De hortaliça, a sopa, tinha couve escura aos pedaços e o feijão era encarnado e feito puré com outros legumes. Lugar: Azerbeijinho. Não é, é outro nome parecido a este, este inventei-o. A sopa estava mesmo boa, o tempero fez-me lembrar a comida da minha mãe, que nunca mais vou comer.
A estrada apresentou-me três papoilas contra a serra, em horizonte esta, do outro lado da estrada aquelas.
Estou a fingir que gosto de passear e estou a forçar-me a escrever coisas acerca do passeio para não pensar que finjo. Quero dizer: neste parágrafo é o que me está a acontecer.
O almoço foi lacão, que é, disse a chefe de sala (vamos lá mas é a pôr isto num escalão elevado) pernil de porco, acompanhou com puré de batata-doce e castanha, espinafres gratinados e rodelas de batata fritas. Com a sobremesa é que me lambi toda, pudim alentejano feito com pão (tinha de ser, né?), mel, amêndoas e laranja. Isto disse a chefe - simpatiquíssima, já agora fica o reparo, e entre hífenes, para destacar das demais interrupções - mas decerto lá puseram ovos. Ficou esquisito, mas vá, afinal as pessoas também põem ovos.
Quero que fique registado que este post está a ser construído lentamente, a cada pausa dedico-lhe um poucochinho de tempo a escrever. Eu acho sempre poucochinho o tempo que tenho para escrever. Cada parágrafo é um desses poucochinhos.
Giro que se farta foi ter reparado que numa localidade de seu nome Água de Todo o Ano há uma coisa aero-não-sei-quê. É água e ar, é o que é.
Mas firo giro giro foi ter passado a fronteira. Calhou. Era preciso abastecer e o posto mais próximo encontrava-se em território de nuestros hermanos. Mas, mais giro ainda, que eu bem sei que é possível, foi isto ter acontecido precisamente no dia em que reabriram as fronteiras.
O jantar foi sopa de espinafres. Também havia migas de espargos e plumas. E vinho. A propósito de bebidas, a água fui buscá-la à torneira do lavatório. Pá, uma pessoa cheia de sede, uma bica aqui ao pé e um copo tão à vista... Ora, água, esperar que ma tragam porquê?

Este dia nunca mais vai acontecer, nem estas nuvens.
É ainda de notar que a viagem também não.

Dia de (não era preciso dizerem na Rádio)

Hoje é Dia da Mãe e a minha mãe não atendeu o telefone.
O lado positivo, que sempre há, no mínimo, um, é que um dia não são dias e todos os dias podem ser das mães. Neste parágrafo só há frases tão largamente visitadas que já nem fazem sentido nenhum.

sábado, 1 de maio de 2021

Dia de (não era preciso dizerem na Rádio)

1 de Maio e pumba, um terço do ano já foi cu caraças. Hoje é feriado, dia do trabalhador - acho graça a este enredo. Trabalho há 37 anos mas não tive este pensamento 37 vezes, tive para aí quê, 35, vá.